White Sharks Don’t Eat Flowers É O Novo Disco De Tricycles
Imaginem uma viagem por um campo verdejante com uma luz que varia entre o amarelo quente de um sol de verão e um toque alaranjado de um sol de outono, passando sempre por um breu abrilhantado por estrelas, para terminar, confortavelmente, deitados num sofá, de olhos voltados para uma grande janela, com a cabeça do nosso cão apoiada na nossa barriga e uma lareira a crepitar lentamente ao fundo.
White Sharks Don’t Eat Flowers pode ser essa viagem, feita com um triciclo ou a pé, acompanhada de canções cheias e corpulentas, embrulhadas numa harmonia que se funde com uma melancolia alegremente aveludada pelo toque suave da melodia.
Com um intervalo de um pouco mais de 4 anos, os Tricycles, continuaram a busca inquieta do ponto de equilíbrio melódico e lírico entre a raiva e a contemplação, e, no percurso, encontraram novas personagens, situações, momentos, traduzidos em canções que refletem a nossa humanidade, a nossa desumanidade, as pequenas glórias e discretas misérias do quotidiano, os desencontros e esperanças e infelicidades a que talvez os tubarões sejam invulneráveis. O resultado é um álbum com maior maturidade, oferecendo um som mais cru e expansivo e, simultaneamente, mais homogéneo. Sem pudores e complexos, os Tricycles continuam a pedalar, absorvendo o que lhes apetece das férteis terras da pop, folk e do rock.
Imaginem um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, e a pensar: “Apetece-me apanhar o próximo barco para Marte e desviá-lo até ao centro do Sol”. É mais ou menos isto que os Tricycles são: uma coisa vagamente improvável, um conjunto de kidadults de rumo duvidoso mas com histórias para contar, cheias de pessoas que poderiam existir. E de facto existem, em calmas músicas prontas a explodir, lentamente, a mil à hora, com suavidade, ou em rugidos de guitarras zangadas e pianos falsamente corteses, de rudes baixos a conversar com educadas baterias. Os Tricycles são tudo isto e, claro, não são absolutamente nada disto, porque “isto” não passa de palavras que tentam descrever música – algo que, sabemos todos, é impossível de se fazer apropriadamente.
Os Tricycles são uma banda de Lisboa com ligações a Coimbra formada por Sérgio Dias (bateria), Rui Tiago Narciso (baixo), Afonso Almeida (guitarra eléctrica, voz) e João Taborda (voz, guitarra acústica, teclas). Gostam de andar na estrada, como qualquer veículo digno desse nome. A energia da lua no alcatrão quente sobe pelos pedais até ao volante e explode em concertos onde o público e a banda comungam raivas e melodias.
O primeiro álbum, Tricycles, saiu em 2019 com o selo da Lux Records. Lançam agora o segundo trabalho, White sharks don’t eat flowers, gravado nos estúdios da Blue House, por Henrique Toscano (Birds Are Indie), misturado e masterizado por João Rui (a Jigsaw / John Mercy) e produzido por João Taborda e Afonso Almeida. O álbum saiu com o selo da Lux Records e será apresentado no dia 30 no Village Underground.