Patos Bravos apresentam “Honorato”
No universo peculiar de Patos Bravos, nasce Honorato — uma personagem manco de uma perna, rato de alma e corpo, refugiado doméstico na casa da avó materna. Uma espécie de anti-Cristo pós-moderno, falhado e errante, que carrega nos ombros o peso das suas convicções… avesso ao consenso, um pessimista crónico, um relativista absoluto.
A canção é uma sátira afiada ao mito americano: à terra das oportunidades que tantas vezes se afoga no espelho da sua própria vaidade. É uma homenagem às liberdades que aprendemos a respeitar e nos inspiram — pelo cinema, pela música, pelo sonho — mas também um alerta sobre o risco de uma América que se esquece da escuta, do outro, da dúvida. Porque Honorato é o oposto do herói musculado, do sorriso branco, da narrativa triunfal. Ele arrasta-se, não se vende, e está sempre num queixume errante. Neste caso, em particular, o design esteve a cargo da parceria entre Manuel Matos Dias e Miguel Carvalho.
Patos Bravos, por sua vez, não é bem uma banda — é mais uma torrente de ideias musicais vindas de João Biancard Cruz, compositor e criador do projeto. As canções nascem do seu imaginário e crescem no Estúdio Zeco pelas mãos cúmplices de João Só e do seu compagnon de route Manuel Guerra, que abrem as portas a músicos e sonoridades alternativas, sempre ao serviço da canção. O resultado é um coletivo mutante, um colóquio sónico onde as ideias se encontram, se contradizem e se tornam canções. Mais do que um grupo, Patos Bravos é uma reunião de vozes à volta de um fogo criativo — onde cada chama tem cor diferente.
Honorato já está cá fora. Ouve-o com os ouvidos abertos e o espírito inquieto.