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04 Outubro 2026

Tiago Nóia edita álbum de estreia “Está Forrado”, acompanhado pelo novo single e videoclipe “Morrer na Praia”

Tiago Nóia apresenta “Está Forrado”, o seu primeiro álbum de longa duração, acompanhado pelo lançamento do novo single e videoclipe “Morrer na Praia”. Construído a partir das frustrações, desilusões, euforias, contradições, revoltas, indignações e injustiças vividas e observadas pelo músico ao longo dos últimos dois anos, o disco consolida uma linguagem onde a crueza da produção DIY se cruza com uma escrita marcada pela ironia, pelo desencanto e pela observação crítica do quotidiano.
O título recupera uma expressão madeirense utilizada quando o céu está encoberto. Natural de Machico, Tiago Nóia transforma essa imagem numa metáfora para a atmosfera que atravessa o álbum: uma nuvem negra que permanece sobre as cabeças enquanto, por habituação, cansaço ou simples necessidade de continuar, se aprende a ignorar aquilo que está à volta.
É desse estado de permanente inquietação que nascem as canções de “Está Forrado”. O disco observa um quotidiano acelerado, onde sair de casa cedo depois de uma noite mal dormida, enfrentar o trânsito e regressar a um trabalho que não respeita nem preenche se tornam parte de uma normalidade raramente questionada. A essa experiência juntam-se relações abusivas – amorosas, familiares, profissionais ou de amizade -, estruturas hierárquicas, a obsessão pela produtividade e a ideia de que tudo aquilo que se faz deve possuir uma utilidade mensurável ou um valor comercial.
Habitação, saúde, ensino, alimentação e entretenimento surgem igualmente dentro desse retrato de uma sociedade progressivamente organizada em torno do consumo. Em “Está Forrado”, Tiago Nóia procura colocar foco precisamente sobre aquilo que, pela repetição, corre o risco de deixar de provocar estranheza. A desumanização torna-se quotidiana e a urgência constante passa a ser entendida como condição inevitável, num disco que olha para aquilo que o artista descreve como um “sistema capitalista canibal”.
A crítica não surge, contudo, desligada do humor. Entre revolta, absurdo e sarcasmo, “Está Forrado” encontra no riso uma resposta possível ao peso das situações que descreve. A própria contradição entre reconhecer aquilo que está errado e continuar a viver dentro desse sistema atravessa o trabalho, aproximando o comentário social de experiências concretas e quotidianas em vez de o transformar num discurso abstrato.
Essa tensão prolonga-se em “Morrer na Praia”, single escolhido para acompanhar a edição do álbum. A canção parte de uma aparente desistência perante o estado das coisas: se os problemas continuam a acumular-se e quem decide sobre eles raramente os sente na pele, talvez seja mais simples ir apanhar sol, entrar na água fria do Norte e tentar esquecer a razão da indignação.
Por detrás desse impulso de evasão permanece, porém, a mesma inquietação que percorre o disco. “Morrer na Praia” contrapõe a leveza associada ao imaginário de um dia passado junto ao mar a questões de desigualdade social e política, colocando lado a lado quem vive diretamente as dificuldades e quem toma decisões a partir de posições de poder. Entre o desencanto e o humor, o tema transforma a praia num lugar de fuga temporária: perante aquilo que parece impossível mudar, restam o sol, o mar e “duas minis”.
O single chega acompanhado por um videoclipe realizado, filmado e editado por João Martins, de Summer of Hate e Os Overdoses, responsável também pela cor e pós-produção juntamente com Randy Lee Ericsson. A produção e os efeitos especiais ficaram a cargo de Tiago Nóia. 
“Está Forrado” prolonga a dimensão independente que tem definido o percurso de Tiago Nóia. Escrito e composto pelo músico, o álbum conta com Tiago Nóia na voz e guitarra, Maria Ana Guimarães nos sintetizadores e teclados e João Quinhentas na bateria. A produção, captação, mistura e masterização foram integralmente assumidas pelo próprio artista, com gravações realizadas na Sala 141 do Centro Comercial STOP e em casa. O artwork é igualmente da sua autoria.
Mais do que uma circunstância de produção, esta abordagem DIY integra a própria identidade do álbum. Para Tiago Nóia, fazer música não depende da existência de financiamento ou das condições ideais para criar: nasce de uma necessidade de preservar uma identidade e encontrar um meio para exteriorizar aquilo que observa. A limitação de recursos deixa, assim, de ser apenas uma condicionante técnica e passa a participar diretamente na estética crua do disco.
Essa abordagem já tinha sido apresentada em “Comem Tudo”, single que antecipou “Está Forrado” através de uma crítica frontal à voracidade do capitalismo contemporâneo. Entre consumo, exploração laboral e alienação, a canção introduziu algumas das preocupações que atravessam agora o longa-duração, condensadas na imagem de um sistema que “come tudo” enquanto deixa progressivamente menos espaço para quem nele vive.
Natural de Machico, na Madeira, Tiago Nóia começou a compor durante a adolescência e desenvolveu parte importante da sua identidade musical depois de se mudar para a Irlanda. Em Dublin, estudou música e aproximou-se da cena punk e DIY local, experiência que continua presente na forma como encara a criação, a produção e a atuação ao vivo.
Entre a energia do punk, a produção lo-fi, o surrealismo e uma escrita de comentário social, o músico tem construído um universo influenciado por nomes como Ditz, Gurriers e IDLES, mas também por referências portuguesas como Tó Trips, José Mário Branco e Linda Martini. Grande parte do processo criativo e técnico permanece deliberadamente nas suas mãos, mesmo quando as canções se abrem à colaboração com outros músicos.
Com “Está Forrado”, Tiago Nóia reúne essas diferentes dimensões no seu primeiro longa-duração. A nuvem negra que dá nome ao disco permanece sobre um quotidiano feito de trabalho, consumo, relações, hierarquias, injustiça e cansaço, mas também de contradição, euforia e humor. Se o céu está forrado e não parece haver maneira de o limpar, as canções encontram pelo menos uma forma de olhar para cima, reconhecer a nuvem e recusar fingir que ela não está lá.
 
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