Soberania digital “não é imitar o que os outros estão a fazer”
“As grandes empresas que estão a trabalhar na inteligência artificial baseada no desenvolvimento de sistemas que requerem uma quantidade astronómica de dados – essa maneira de desenvolver IA – está (…) concentrada neste momento na América e na China”, refere a diretora do Laboratório de Políticas de IA [director AI Policy Lab] da Universidade de Umeå, Suécia.
Agora, “soberania não é imitar o que os outros estão a fazer. Soberania, penso eu, é olharmos para o nosso contexto, para as nossas capacidades e ver o que é que nós precisamos”, defende Virginia Dignum, que recentemente lançou o livro The AI Paradox [O paradoxo da IA].
“Nem todos os problemas que temos necessitam uma solução de IA [inteligência artificial] que é baseada nestes transformers [rede neural que aprende o contexto] e LLM [Large Language Models, em inglês, ou modelos de linguagem de grande escala] que eles estão a desenvolver, há alternativas”, aponta a académica.
A primeira parte da soberania, “é assegurar que temos a capacidade de desenvolver essas alternativas e mais importante ainda, a capacidade de entender que tipo de ferramenta precisamos para resolver ou para solucionar que tipo de problemas”.
Ou seja, “o que a ‘big tech’ [grandes tecnológicas] na América e na China estão a fazer é desenvolver chaves de parafusos cada vez maiores. O maior ponto para a soberania é desenvolvermos uma caixa de ferramentas com as ferramentas que são necessárias para atacar e para solucionar os problemas no contexto europeu ou no contexto africano ou no contexto de onde é que seja”, prossegue a investigadora.
Na Europa, a soberania digital é um tema que está na ordem do dia, tendo em conta a dependência da região das ‘big tech’ norte-americanas.
“Entender a soberania sobre ‘também queremos fazer chaves de parafusos gigantes aqui na Europa’ é uma maneira, mas continua a ser tão magra e tão pobre como o que estão a fazer na América e na China”, considera a investigadora portuguesa.
“Se queremos mesmo ser soberanos, temos que começar a diversificar e a entender que não é só a quantidade de dados que nos vai proporcionar uma inteligência artificial mais adequada para os sistemas e para os assuntos que temos que desenvolver aqui na Europa”, defende Virginia Dignum, que trabalha com IA há várias décadas.
Questionada sobre o sistema de IA Amália, a académica aponta que “é fazer uma chave de parafusos que fala português, não é desenvolver uma caixa de ferramentas com serrotes e com martelos e com chaves de parafusos e qualquer outra coisa que já esteja dentro da caixa de ferramentas”.
Claro que “é importante termos sistemas de linguagem que falem português, portanto não duvido da importância de desenvolver um sistema como a Amália, mas um sistema como a Amália não é a solução para todos, para a soberania nacional sobre a inteligência artificial”, salienta.
“Soberania nacional, tanto a Portugal como qualquer outro país, é exatamente começar por perceber que ferramentas é que precisamos na caixa de ferramentas e como é que vamos desenvolver alternativas para a chave de parafusos”, remata Virginia Dignum.