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29 Agosto 2026

“Proibição das redes sociais cria um paradoxo”, alerta académica chinesa

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Uma académica chinesa alertou hoje que a proibição de redes sociais para crianças com menos de 16 anos poderá ter o efeito oposto.


ara Li Ke, doutoranda na Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, argumentou que restrições bem-intencionadas empurram os menores para espaços ‘online’ não regulamentados, onde enfrentam riscos maiores.

“A proibição cria um paradoxo: as crianças tornam-se hábeis na evasão, mas carecem da literacia cibernética para se protegerem”, afirmou Li Ke, ao apresentar as suas conclusões na Universidade de Macau, no Fórum Interdisciplinar de Doutoramento: Transformação Digital e Equidade Social: Estudos em Tecnologia, Identidade e Humanidade.

Li criticou a proibição de redes sociais para menores de 16 anos na Austrália, a primeira legislação deste tipo no mundo, que desencadeou uma vaga de leis semelhantes a nível global, mas também expôs profundas falhas nesta abordagem.

A lei australiana de 2024 obriga as plataformas a impedir o acesso de menores de 16 anos, medida que foi depois também aplicada por países como França, Reino Unido, Espanha, Canadá, Brasil e Indonésia. Dinamarca, Tailândia e Coreia do Sul estão a ponderar implementar medidas semelhantes.

Li considerou que depois de os governos passarem a aplicar um controlo hierárquico através da lei e da regulamentação, as crianças passaram a recorrer a uma “resistência subtil” para contrariar ou ultrapassar essas restrições.

Citando um estudo publicado numa revista médica britânica, a investigadora referiu que aproximadamente 86% dos menores de 16 anos na Austrália acederam a pelo menos a uma plataforma restrita na semana seguinte à implementação da proibição, tendo 15% a 19% admitido usar contas falsas ou VPN para contornar as restrições.

Uma VPN (sigla em inglês) é uma rede privada virtual que permite ocultar ou modificar a localização do utilizador.

Uma investigação separada do Centro de Estudos de Media da Universidade Tsinghua, em Pequim, mostrou que os ‘downloads’ [transferências de dados] de VPN na Austrália aumentaram quase três vezes por volta do período da execução da proibição, enquanto a utilização da rede de mensagens WhatsApp também cresceu, “indicando que as necessidades sociais dos menores simplesmente migraram para espaços alternativos”.

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Li observou que, na vida quotidiana, as crianças também recorrem ao empréstimo de identidades de adultos, muitas vezes com o consentimento dos pais, para registar contas e “estão a reaproveitar plataformas de estudo e jogos com moderação mais leve, transformando-as em espaços de conversação social encobertos”.

“Este ‘desvio digital’ acarreta sérios riscos”, alertou Li, pois “o aumento da utilização encoberta prejudica a supervisão familiar e escolar, deixando os menores expostos a plataformas não regulamentadas nas quais ‘ciberbullying’ [ameaças ou intimidação através da Internet], fraude e comportamentos predatórios são mais prováveis”.

A académica descreveu o que chamou de “paradoxo da proteção”, que acontece quando um Governo tenta criar “um ambiente absolutamente seguro e sem riscos” para proteger as crianças, mas que acaba por “enfraquecer estruturalmente” a capacidade destas desenvolverem competências de autoproteção através da “tentativa e erro baseado no risco”, e “potencialmente desencadeando riscos ainda mais destrutivos”.

A académica instou, por isso, os governos a irem além dos “limiares etários estáticos” e a “incluírem as crianças como participantes ativas no desenho das políticas”.

Os pais devem “concentrar-se nas relações e experiências ‘online’ dos filhos, em vez de fiscalizações rígidas do tempo de ecrã” e devem “cultivar a literacia digital” para que os jovens aprendam sobre riscos existentes.

“O ambiente digital muda rapidamente, qualquer proibição estática terá dificuldade em adaptar-se”, concluiu Li, sublinhando que as “estratégias de governação devem evoluir em paralelo” com os comportamentos das crianças.

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