JOSÉ CAMILO APRESENTA “NÃO SÃO MALUCOS, SÓ UM POUCO DOENTES
Há momentos em que um músico não está propriamente a começar um disco novo nem a terminar o anterior. Está simplesmente entre discos. É desse lugar intermédio que nasce “Não são malucos, só um pouco doentes”, a nova canção de José Camilo, músico e escritor de Queluz.
Depois de vários discos publicados e de um percurso desenvolvido ao longo de anos com editoras e com a banda que o costuma acompanhar, os Cúmplices, José Camilo regressa agora às canções numa configuração diferente: sem os Cúmplices, sem editora e completamente independente.
E essa condição acaba por se ouvir na própria gravação.
Longe da ideia de uma banda reunida num estúdio para construir um som grande e acabado, “Não são malucos, só um pouco doentes” assume uma estética mais lo-fi, crua e próxima, deixando espaço para se ouvir a própria matéria da gravação.
A canção começa num sussurro, quase como se José Camilo estivesse a cantar apenas para quem está do outro lado dos auscultadores. Pouco a pouco, esse espaço íntimo vai-se abrindo e a música ganha dimensão, intensidade e corpo, até deixar de ser apenas uma voz isolada para se transformar numa canção que ocupa o espaço.
É uma escolha que combina com o momento em que a música foi feita: um músico sozinho, entre trabalhos, sem a estrutura de uma banda e sem uma editora a determinar o caminho do lançamento.
Mais do que procurar reproduzir em estúdio aquilo que José Camilo faria com os Cúmplices, esta nova canção assume precisamente a ausência da banda como parte da sua identidade. Há menos preocupação com a perfeição do som e mais interesse na proximidade, na textura e na sensação de que a música está a acontecer ali, naquele momento.
“Não são malucos, só um pouco doentes” surge assim como uma espécie de fotografia de uma fase intermédia do percurso de José Camilo. Não é ainda o regresso dos Cúmplices, nem é o anúncio de um novo álbum. É uma canção que existe entre duas fases, feita fora dos circuitos habituais e lançada sem outra estrutura que não a do próprio artista.
A independência, neste caso, não é apenas uma circunstância de produção ou distribuição. É parte da linguagem da canção.
Depois de uma fase sabática, José Camilo prepara também o regresso progressivo à atividade ao vivo e a uma nova etapa da sua obra. Para já, porém, a música nasce de uma posição deliberadamente solitária.
Sem os Cúmplices.
Sem editora.
Sem a máquina de um estúdio de banda.
Com um som mais lo-fi.
E completamente independente.
Começa num sussurro.
Depois, abre.