Apicultor Real Informou As Abelhas Do Palácio De Buckingham Sobre A Morte Da Rainha De Inglaterra
Cumprindo uma tradição com vários séculos, John Chapple, de 79 anos, comunicou às colmeias do Palácio de Buckingham sobre morte da rainha Isabel II e que o seu filho era o novo governante, agora conhecido por Carlos III.
“A rainha morreu, mas não partam. O vosso novo rei será um bom mestre para vocês”, disse o apicultor real John Chapple, de 79 anos, a milhares de abelhas criadas nos jardins do Palácio de Buckingham.
Assim que soube da morte da monarca, o responsável pelas colmeias dirigiu-se até à propriedade para cumprir esta tradição. Os ingleses acreditam que se as abelhas não forem avisadas e não passarem pelo momento de luto deixam a colmeia, parando a produção de mel e, em último caso, podem até morrer.
Para comunicar o luto oficial das abelhas, John Chapple atou uma faixa preta em cada uma das cinco colmeias que estão no Palácio, fez uma oração e contou, em tom ameno, a notícia cruel enquanto dava leves toques nas casas dos insetos.
O mesmo foi feito em Clarence House, outra residência oficial ligada ao Palácio, onde existem duas colmeias. Ao todo, foram avisadas sobre a morte da rainha cerca de 20 mil abelhas.
Se a morte da rainha ocorresse no verão londrino, John Chapple afirmou que seriam mais de um milhão de pequenas produtoras de mel a serem avisadas. De acordo com o apicultor, a maioria das abelhas são da espécie europeia escura de Londres.
Apicultor trabalhava há 15 anos com abelhas quando foi contratado pelo Palácio de Buckingham
Antes de iniciar as suas funções no Palácio de Buckingham, John Chapple já trabalhava na apicultura há 15 anos, considerando o ato como hobby, já que é reformado e encontrou no cuidado das abelhas uma forma de passar o tempo.
“Tudo começou com o amor da minha esposa pelo mel. Passei a desenvolver o mel ao manter abelhas na minha casa. Isso levou-me a todo o mundo, conheci pessoas maravilhosas” referiu John Chapple.
Quanto ao seu futuro, John Chapple espera manter o emprego no reinado do rei Carlos III: “Foi um privilégio fazer coisas para a rainha e espero que, agora, o faça para o rei. Espero que eles ainda queiram manter as abelhas”.
Tradição atingiu o pico nos séculos XVIII e XIX
Contar as abelhas era uma prática bem popular nos séculos XVIII e XIX na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Além da monarquia, a prática já foi seguida por pessoas do campo que moravam na região da Inglaterra, assim como Irlanda, País de Gales, Alemanha, Holanda, França, Suíça e até mesmo os Estados Unidos.
Não há uma origem certa da superstição, mas de acordo com a biblioteca digital para investigadores JSTOR Daily, um poema de 1858 do escritor John Greenleaf Whittier da Nova Inglaterra chamado “Telling the bees” (“Conte às abelhas”, à português) traz uma pequena introdução sobre a prática, afirmando que a tradição é um “ritual folclórico” para “educar os inconscientes”.
Acredita-se que a prática pode ter origem na mitologia celta, onde a presença de uma abelha após a morte significava que a alma estava a deixar o corpo. Ao longo dos séculos, foi desenvolvida a prática de contar a vida do apicultor ou do dono das colmeias às abelha.
Em 1886, o livro “A book about bees” (“Um livro sobre as abelhas”, em português), lançado pelo apicultor e reitor britânico Charles Fitzgerald Gambier Jenyns, trazia mais detalhes: a notícias tinham de ser entregues a cada colmeia, separadamente, à meia-noite. Outros escritores, como a apicultora Tammy Horn, chegam a dizer que a notícia deveria ser cantada com palavras que rimassem.
No poema de John Whittier, o primeiro que registrou o costume na literatura, uma neta conta às abelhas sobre a morte do avô de uma maneira parecida com a qual John Chapple comunicou aos insetos da rainha Isabel II.
“Ela canta: “fiquem em casa, abelhas, não voem daqui! A senhora Mary está morta”, diz o poema. A poesia termina com a comunicação das abelhas, o que é entendido por estudiosos que John Chapple queria ressaltar a importância de “um ritual de transmissão da dor humana”.